Você não precisa “aguentar calada” para ter um bebê com segurança. Se em algum momento da gestação, do parto ou do pós-parto alguém faz você se sentir menor, culpada, pressionada ou sem direito a escolhas, vale acender um alerta. Assédio obstétrico não é “mimimi”, nem “frescura”: é uma forma de violência que pode acontecer em consultas, exames, internação, sala de parto e até na amamentação, quando seu corpo e sua decisão deixam de ser respeitados.
Este texto é um guia prático para como identificar assédio obstétrico no dia a dia, inclusive nas situações em que ele aparece disfarçado de “rotina do hospital” ou “é assim mesmo”. A ideia não é te colocar em estado de guerra, e sim te devolver o que é seu: informação, autonomia e um caminho mais claro para se proteger.
O que é assédio obstétrico (e por que ele confunde)
Assédio obstétrico acontece quando a gestante ou puérpera sofre constrangimento, humilhação, ameaça, chantagem emocional, desinformação ou coerção em decisões relacionadas a seu corpo e ao bebê. Ele pode se manifestar como palavras, atitudes, omissões, procedimentos sem consentimento ou até como “pressa” que atropela a comunicação.
A confusão nasce porque, na obstetrícia, existem situações em que a equipe precisa agir rápido. Emergências reais existem, e intervenções salvam vidas. O problema é quando a urgência vira desculpa para retirar sua voz, ou quando procedimentos são impostos sem explicação, sem consentimento e sem necessidade clínica bem colocada.
Assédio obstétrico não é só grito. Muitas vezes ele é silencioso: é quando você sente que não pode perguntar, não pode dizer não, não pode mudar de ideia.
Como identificar assédio obstétrico: sinais que aparecem antes do parto
Muita gente imagina que o assédio obstétrico só acontece na sala de parto, mas ele costuma começar bem antes.
Em consultas de pré-natal, observe se você é tratada como alguém capaz de entender as opções. Um sinal comum é quando perguntas são recebidas com ironia (“Você leu isso onde?”), quando a pessoa profissional se recusa a explicar riscos e benefícios, ou quando usa medo como ferramenta (“Se você não fizer isso, seu bebê vai morrer”). Informação baseada em evidências não vem em forma de ameaça: vem em forma de conversa clara, proporcional e respeitosa.
Outro alerta é quando você é empurrada para uma decisão fechada, sem espaço para preferências. Por exemplo: “Aqui a gente não faz plano de parto” ou “Aqui é cesárea marcada e pronto”. Um serviço pode ter protocolos, sim, mas protocolos não anulam consentimento. Você tem direito de entender o motivo de cada conduta e de participar das escolhas.
Também é assédio quando seu corpo vira comentário público. Fazer piadas sobre peso, idade, forma do corpo, sexualidade, “capacidade” de parir ou suposta “fraqueza” não é brincadeira: é violência simbólica que te coloca em posição de submissão.
Durante a internação e o trabalho de parto: quando o controle muda de mãos
No trabalho de parto, o ambiente e a dinâmica de poder mudam rápido. Você está vulnerável, com dor, cansada, e muitas vezes em um local desconhecido. É exatamente por isso que a comunicação deveria ficar mais cuidadosa, não menos.
Assédio obstétrico pode aparecer como pressa sem explicação: toques vaginais repetidos por diferentes pessoas sem necessidade e sem pedir permissão, proibição de se movimentar ou de beber água sem justificativa, uso de linguagem infantilizante (“faz força direito”, “para de gritar”), ou ameaças veladas (“Se você não colaborar, vai para a cesárea”).
Um dos pontos centrais aqui é o consentimento. Qualquer procedimento deve ser explicado em termos compreensíveis: o que é, por que está sendo indicado, quais são os benefícios, quais são os riscos, quais alternativas existem e o que acontece se você preferir esperar. Sem isso, você não está escolhendo: está obedecendo.
Há também o assédio por omissão, que é mais difícil de nomear: quando você pede alívio de dor e é ignorada, quando solicita a presença do acompanhante e criam barreiras, quando você demonstra desconforto com uma conduta e ninguém te escuta. Não é “frescura” querer ser ouvida em um momento tão intenso.
Procedimentos e práticas que merecem atenção (o “depende” importa)
Algumas intervenções são frequentemente associadas a experiências traumáticas porque, no Brasil, ainda são usadas de forma automática em certos serviços. A nuance aqui é essencial: o problema não é a existência do procedimento, e sim como e por que ele é aplicado.
Episiotomia, ocitocina, ruptura artificial da bolsa, restrição ao leito, jejum prolongado, manobra de pressão no fundo do útero, puxos dirigidos sem orientação individualizada: tudo isso pode ter indicação em contextos específicos, mas não deveria acontecer como regra, nem sem conversa.
Da mesma forma, uma cesárea pode ser necessária e muito bem-vinda quando há indicação real e quando você é tratada com respeito. O assédio entra quando a cesárea é usada como ameaça, quando informações são distorcidas para te fazer aceitar algo contra a sua vontade, ou quando a alternativa (como tentar posições diferentes, reavaliar tempo, oferecer suporte contínuo) nem chega a ser considerada.
Se você ouvir “aqui é assim” como argumento final, desconfie. O que é baseado em evidências costuma vir com explicação, e não com autoritarismo.
Frases e atitudes típicas de assédio (para você reconhecer na hora)
Alguns padrões se repetem tanto que viram quase um roteiro. Não é para você decorar, e sim para não se sentir “louca” quando algo soar errado.
Quando a equipe ridiculariza sua dor (“na hora de fazer não gritou”), quando te culpa pelo andamento do parto (“você não ajuda”), quando usa o bebê como moeda emocional (“você quer colocar seu filho em risco?”) ou quando fala com você como se você fosse incapaz de entender, isso é sinal de violência. E quando decisões são tomadas “por você” sem te consultar, a linha do respeito já foi ultrapassada.
O assédio também aparece quando a privacidade é quebrada: pessoas entrando e saindo sem se apresentar, exposição do seu corpo sem necessidade, comentários sobre sua genitália, fotos ou filmagens sem autorização. Seu corpo não é cenário.
O que fazer se você suspeitar: passos práticos, sem heroísmo
Quando algo acontece, é comum congelar. Seu cérebro está tentando sobreviver ao momento. Então a proteção precisa ser simples e possível.
Comece nomeando para você mesma: “Eu não estou me sentindo respeitada”. Só isso já muda sua postura interna. Em seguida, tente trazer a conversa para o concreto: “Eu quero que você explique por que isso está sendo indicado agora” e “Eu preciso de um minuto para decidir”. Em muitos casos, a simples exigência de explicação muda a dinâmica.
Se você estiver acompanhada, use o acompanhante como ponte. Combine antes frases curtas, como “Ela quer consentimento antes de qualquer procedimento” ou “Por favor, chamem a pessoa responsável pela equipe”. O acompanhante não está ali para brigar: está para sustentar seu direito de entender e escolher.
Se você conseguir, registre. Anote horário, nomes (ou características), o que foi dito e o que foi feito. Se houver prontuário, você pode pedir para que conste sua recusa ou seu pedido de esclarecimento. Em alguns locais, você também pode solicitar cópia do prontuário depois. Registro não é vingança: é proteção e memória fiel.
E aqui entra um ponto delicado: às vezes, no calor do parto, você pode escolher “ceder” para reduzir conflito. Isso não te torna cúmplice, nem apaga a violência. Sobrevivência também é estratégia.
Depois do parto: quando o assédio continua no pós-parto e na amamentação
Muita gente só consegue reconhecer o que viveu semanas depois, quando o corpo sai do modo alerta. No pós-parto, assédio pode aparecer como julgamentos (“se não amamentar, não é mãe”), manuseio brusco dos seios sem pedir permissão, imposição de fórmulas ou de técnicas sem explicação, ou desrespeito ao seu cansaço e à sua dor.
Se você se pega revivendo cenas, chorando ao lembrar, evitando falar do parto ou sentindo culpa intensa, isso pode ser sinal de trauma. O caminho aqui é cuidado, não silêncio. Conversar com alguém de confiança, buscar apoio psicológico com experiência em perinatalidade e organizar o que aconteceu em palavras pode ser profundamente reparador.
Como se preparar para reduzir o risco (sem cair na ideia de “controle total”)
Preparação não garante que tudo sairá exatamente como você deseja, mas aumenta muito a chance de você ser respeitada.
Um plano de parto bem conversado, escolhido com base em evidências e alinhado com o local de nascimento, ajuda porque transforma preferências em comunicação objetiva. Conhecer seus direitos como paciente, entender intervenções comuns e escolher uma equipe que aceite diálogo também faz diferença.
Ainda assim, existe o “depende”: mesmo com plano e equipe, trocas de plantão acontecem, serviços lotam, e culturas institucionais pesam. Por isso, preparação é também escolher suas prioridades: o que é inegociável para você (consentimento, acompanhante, contato pele a pele, privacidade) e onde você pode ser flexível se for necessário.
Se você quiser aprofundar sua preparação com guias práticos sobre parto respeitoso e tomada de decisão informada, a A Casa de Parto reúne conteúdos e materiais pensados para a realidade brasileira.
Um critério simples para levar com você
Quando bater dúvida sobre se algo é assédio obstétrico, use este critério interno: eu fui informada com clareza e tratada com respeito para decidir?
Você não precisa “vencer” o sistema em um único dia. Mas você pode, passo a passo, exigir o básico: dignidade, consentimento e cuidado. E quando uma mulher reconhece isso, ela não volta a ser pequena dentro de uma sala de parto — ela volta a ser dona de si.