Você sai de uma consulta ou de uma maternidade com a sensação de que “passou por cima” de você, mas ainda assim se pergunta se está exagerando. Esse tipo de dúvida é comum porque a violência obstétrica, no Brasil, muitas vezes vem disfarçada de “rotina”, “brincadeira”, “é assim mesmo” ou “é para o seu bem”. Só que cuidado não deveria doer por humilhação, medo ou coerção. E você não precisa aceitar nada sem entender.
Violência obstétrica: o que é, afinal?
Quando alguém busca “violência obstétrica o que é”, normalmente está procurando uma definição que dê nome a uma experiência difícil de explicar. Em termos práticos, violência obstétrica é qualquer ação, omissão, palavra ou conduta de profissionais e instituições de saúde que, durante a gestação, o parto, o pós-parto ou situações de abortamento, fere a dignidade da mulher, desrespeita a sua autonomia, causa sofrimento evitável ou impõe intervenções sem indicação e sem consentimento informado.
Ela pode acontecer no SUS ou no particular, em hospitais grandes ou pequenos, com equipes “bem avaliadas” ou não. E pode ser explícita (gritos, ameaças, humilhação) ou silenciosa (negar informação, ignorar dor, deixar você sozinha, não respeitar o seu corpo e o seu tempo).
Um ponto central: violência obstétrica não depende de “intenção”. Mesmo quando um profissional acredita estar ajudando, se ele faz sem explicar, sem pedir consentimento, sem respeitar sua recusa, ou se usa medo para conseguir obediência, existe violação de direitos. E isso tem impacto real: trauma, depressão pós-parto, dificuldade na amamentação, medo de uma próxima gestação e piora do vínculo com a experiência de nascimento.
Como a violência obstétrica aparece na vida real
A violência obstétrica costuma se manifestar de formas diferentes ao longo da jornada. Nem sempre é um “grande evento”; às vezes é uma sequência de pequenas violações que vão te deixando menor, confusa, sem força para decidir.
Na gestação e no pré-natal
No pré-natal, ela pode aparecer quando você é ridicularizada por perguntas, quando suas queixas são minimizadas (“isso é frescura”), quando há julgamento moral (por idade, corpo, número de filhos, estado civil) ou quando decisões são empurradas sem explicação. Um exemplo comum é o uso do medo como ferramenta: “se você não fizer tal procedimento, seu bebê pode morrer”. Informação baseada em evidências não vem em forma de ameaça; vem com riscos, benefícios, alternativas e espaço para você pensar.
Também é violência quando você não recebe orientação adequada sobre sinais de trabalho de parto, opções de analgesia, posições para parir, presença de acompanhante, direitos e fluxos do serviço. A falta de informação cria dependência e enfraquece o consentimento.
No trabalho de parto e no parto
Aqui, a violência pode ser verbal, física, institucional e também sexual (por exemplo, toques repetidos, sem necessidade e sem consentimento, ou comentários invasivos). Ela pode vir como pressa para “acelerar” um corpo que está parindo, com intervenções de rotina que não são individualizadas.
Alguns sinais frequentes são: impedirem você de se movimentar sem explicação clínica clara; proibirem água, comida ou banho como regra; negarem a presença do acompanhante; realizarem procedimentos sem explicar o que são e por que são necessários; pressionarem por cesárea sem discutir critérios; ou usarem frases que culpabilizam (“na hora de fazer não gritou”). Nada disso é cuidado.
Vale uma nuance importante: existem situações em que intervenções salvam vidas. A questão não é “intervenção nunca”; é indicação correta, comunicação clara, consentimento, proporcionalidade e respeito. Emergência real pede agilidade, mas não exige humilhação nem apagamento da mulher.
No pós-parto e na amamentação
A violência não acaba quando o bebê nasce. Pode aparecer quando você é separada do bebê sem necessidade; quando ignoram sua dor, sua exaustão ou sinais de complicações; quando fazem “manejos” de amamentação de forma agressiva, com pegadas forçadas e sem pedir permissão; ou quando você é culpada por dificuldades com leite, pega ou ganho de peso.
Também há violência institucional quando o serviço não garante privacidade, não oferece condições mínimas de repouso e cuidado, ou quando não explica medicações, pontos, sinais de alerta e cuidados com o corpo no puerpério.
Tipos de violência obstétrica (e por que ela confunde tanto)
Muita gente espera que violência seja só grito e xingamento. Mas ela é mais ampla.
A violência verbal e psicológica inclui humilhações, ironias, ameaças, chantagem emocional e desqualificação da dor. A violência física pode envolver contenção, procedimentos dolorosos sem analgesia ou sem necessidade, e qualquer ato feito contra a sua vontade.
A violência institucional aparece quando o serviço cria barreiras: negar acompanhante, impedir plano de parto, não oferecer alívio de dor, lotação que resulta em abandono, protocolos que padronizam corpos diferentes como se fossem iguais. E existe a violência por omissão: quando você pede ajuda e ninguém vem; quando a sua febre, sangramento ou pressão alta são negligenciados; quando sinais de sofrimento são ignorados.
Ela confunde porque, culturalmente, normalizamos a ideia de que parto é “provação” e que a mulher precisa “aguentar”. Só que aguentar não é sinônimo de parir. Parto respeitoso é firmeza clínica com acolhimento humano.
O que é consentimento informado no parto (na prática)
O centro da prevenção é o consentimento informado: você entender o que está sendo proposto, por que, quais são os benefícios, riscos e alternativas, e ter espaço real para aceitar, recusar ou pedir tempo.
Na vida real, consentimento não é assinatura em papel quando você está com dor e com pressa ao redor. Consentimento é conversa ao longo do pré-natal, é plano de parto discutido, é equipe que pergunta antes de tocar, que explica antes de intervir e que respeita um “não” quando existe segurança para esperar.
Se alguém diz “não dá tempo de explicar” para tudo, desconfie. Mesmo em cenários acelerados, dá para dizer o essencial: o que está acontecendo, o que será feito e por que aquilo é necessário agora.
Como se proteger: preparo que vira autonomia
Você não tem controle sobre tudo no parto, mas você pode chegar muito mais protegida quando prepara o terreno.
Comece escolhendo um pré-natal em que você se sinta ouvida. Leve perguntas por escrito no celular, anote respostas e peça para explicarem termos. Se algo não fizer sentido, peça exemplos, peça números, peça alternativas.
Construa um plano de parto realista e conversável. Plano de parto não é “lista de desejos”; é um instrumento de comunicação e alinhamento. Ele ajuda a equipe a entender o que é importante para você (ambiente, posições, analgesia, contato pele a pele, intervenções que você quer evitar ou discutir antes) e ajuda você a se lembrar do que decidiu quando estiver vulnerável.
Treine frases curtas para momentos de pressão: “Eu preciso que você me explique”, “Eu quero uma segunda opinião”, “Eu não autorizo sem entender”, “Eu quero falar com a responsável técnica”, “Por favor, registre no prontuário a minha recusa e a justificativa clínica”. Dizer isso com calma pode mudar a dinâmica.
E escolha uma pessoa acompanhante que realmente sustente você, não que aumente a sua ansiedade. A função do acompanhante não é “brigar”, mas ajudar a garantir comunicação, presença e respeito: lembrar do plano, pedir explicações, chamar equipe quando você precisar.
Se fizer sentido para a sua realidade, considere doula e uma equipe alinhada com parto humanizado. Isso não é luxo; muitas vezes é estratégia de cuidado e de redução de intervenções desnecessárias. Ainda assim, mesmo com a melhor equipe, imprevistos acontecem. A diferença é como eles são conduzidos: com transparência, consentimento e cuidado emocional.
E se aconteceu comigo? Nomear, cuidar e buscar caminhos
Se você percebe que viveu violência obstétrica, a primeira necessidade costuma ser interna: validar a sua percepção. Se doeu, se te silenciaram, se você foi tratada como objeto, isso merece cuidado. Conversar com alguém de confiança, buscar apoio psicológico perinatal e encontrar espaços seguros para elaborar a experiência pode ser tão importante quanto qualquer medida formal.
Se você quiser registrar, existem caminhos possíveis: ouvidoria do hospital, secretaria de saúde, conselhos profissionais, defensoria, além de solicitar cópia do prontuário. Nem todo mundo vai querer ou conseguir seguir por vias administrativas ou legais, e está tudo bem. O ponto é você retomar a sensação de escolha, inclusive sobre como lidar com o que aconteceu.
Se você está grávida agora e está lendo com medo, respire: informação não serve para te paralisar; serve para te orientar. A realidade brasileira tem desafios, mas também tem profissionais comprometidos, boas práticas e experiências respeitosas todos os dias.
Em A Casa de Parto você encontra conteúdos para organizar decisões com base em evidências, fortalecer seu plano e sustentar a sua autonomia com firmeza e acolhimento.
Um cuidado respeitoso muda tudo
Parto não é um teste de resistência, e maternidade não deveria começar com silêncio engolido. Você tem direito a ser informada, a ser ouvida, a consentir e a recusar, a ter alívio de dor, a ter acompanhante, a ser tratada com dignidade. Se um atendimento faz você se sentir pequena, confusa ou culpada por existir, isso não é normal: é um sinal para ajustar a rota, pedir apoio e se cercar de uma rede que te devolva o protagonismo que já é seu.