Você pode querer uma cesárea por medo da dor, por experiências ruins que ouviu, por achar que vai “controlar melhor” o dia do nascimento — ou pode estar tentando evitá-la e mesmo assim ouvir que “é mais seguro” sem explicações. No Brasil, a cesárea muitas vezes aparece como padrão, não como exceção. E é exatamente por isso que falar sobre complicações não é “terrorismo”: é devolver para você o direito de decidir com informação.
A cesárea é uma cirurgia grande, que pode salvar vidas quando bem indicada. Ao mesmo tempo, como toda cirurgia, ela tem riscos. E os riscos não são iguais para todas: dependem do seu estado de saúde, do contexto do parto, da equipe, do hospital e também do que acontece depois, no puerpério. A seguir, você vai entender as complicações da cesárea para a mãe no curto e no longo prazo, quais sinais pedem avaliação imediata e o que você pode fazer, na prática, para reduzir danos e proteger a sua autonomia.
Complicações da cesárea para a mãe: entendendo o “porquê”
A cesárea envolve corte na pele, na gordura, na fáscia (uma camada resistente), na musculatura e no útero. Isso significa sangramento cirúrgico, manipulação de órgãos, anestesia e um pós-operatório com dor e limitação de movimento. Diferente do parto vaginal, em que o corpo se recupera de um esforço intenso, aqui ele se recupera de uma intervenção invasiva. Essa diferença explica por que algumas complicações são mais prováveis após cesárea, especialmente quando ela não era necessária.
Também importa o momento. Uma cesárea planejada, antes de trabalho de parto, costuma ter um cenário diferente de uma cesárea intraparto (após horas de contrações), quando já existe cansaço, possíveis alterações de pressão, bolsa rota, toques repetidos e maior chance de infecção. “Cesárea” não é uma coisa só: o contexto muda bastante o risco.
Complicações imediatas: o que pode acontecer nas primeiras horas e dias
A complicação mais temida no curto prazo é o sangramento excessivo. Toda cirurgia sangra, mas em cesárea o útero precisa contrair bem para estancar os vasos que irrigavam a placenta. Quando o útero fica “mole” (atonia uterina) ou quando existe dificuldade de retirada da placenta, o sangramento pode ser grande e rápido. Isso pode exigir medicamentos, procedimentos adicionais e, em alguns casos, transfusão.
Outra complicação relevante é a infecção. Ela pode aparecer na ferida operatória, no útero (endometrite) ou no trato urinário, já que frequentemente há sondagem vesical. Em geral, antibióticos ajudam, mas infecções podem prolongar internação e atrapalhar o início do puerpério e da amamentação, além de aumentar a dor e o mal-estar.
Existe também o risco de lesões de órgãos próximos, como bexiga e intestino, principalmente em cesáreas repetidas, quando há aderências. É menos comum, mas é parte do pacote de risco cirúrgico e pode exigir reparo no mesmo ato ou cuidados prolongados.
A anestesia, por sua vez, tem efeitos próprios. Raquianestesia e peridural podem causar queda de pressão, náuseas, tremores e, em alguns casos, cefaleia pós-punção (uma dor de cabeça forte que piora ao sentar). Anestesia geral é mais rara, mas carrega riscos respiratórios e demanda recuperação diferente.
Por fim, o tromboembolismo (trombose e embolia pulmonar) merece atenção. Gravidez e pós-parto já aumentam a tendência do sangue “coagular”; cirurgia e imobilidade elevam ainda mais esse risco. Medidas como levantar precocemente, hidratar-se e, em casos selecionados, uso de medicação preventiva, fazem diferença.
Dor, mobilidade e impacto emocional também contam
Nem toda complicação é “médica” no sentido estrito, mas ainda assim pode ser determinante para a sua saúde. Dor intensa que impede você de levantar, ir ao banheiro, segurar o bebê com confiança ou dormir vira um ciclo: menos movimento, mais rigidez, mais risco de constipação, piora do humor. Além disso, quando a cesárea acontece de forma não consentida ou com pressão, é comum aparecer sofrimento emocional, sensação de perda de controle e até sintomas de trauma. Isso não é frescura: é uma resposta do corpo a uma experiência em que você não se sentiu respeitada.
Complicações no pós-parto (dias a semanas): o que pode aparecer quando você já está em casa
Em casa, duas coisas costumam confundir: o que é “recuperação normal” e o que é sinal de alerta. Um certo nível de dor na incisão, sangramento vaginal moderado (lóquios) e cansaço são esperados. Mas alguns quadros exigem avaliação.
Infecção de ferida pode surgir após a alta, com vermelhidão que se espalha, calor local, secreção com mau cheiro, abertura de pontos ou febre. Seroma e hematoma (acúmulo de líquido ou sangue) podem formar um “caroço” dolorido na região do corte. Deiscência (abertura da incisão) é menos comum, mas pode acontecer, especialmente se houver esforço precoce, tosse intensa, obesidade ou infecção.
A dor pélvica persistente, ardor ao urinar, corrimento fétido e febre podem sugerir endometrite. E falta de ar, dor no peito, inchaço assimétrico em perna e dor na panturrilha são sinais que precisam de urgência por risco de tromboembolismo.
Também é comum a constipação após cesárea: anestesia, analgésicos e medo de forçar podem prender o intestino. Parece pequeno, mas pode aumentar a dor, a sensação de pressão na cicatriz e a ansiedade no puerpério.
Complicações de longo prazo: quando a cicatriz vira um tema nas próximas gestações
Algumas consequências aparecem meses ou anos depois. Aderências (tecido cicatricial interno) são frequentes após cirurgias abdominais. Elas podem causar dor pélvica, desconforto intestinal e aumentar a dificuldade de uma eventual cirurgia futura.
Na saúde reprodutiva, cicatriz uterina pode influenciar escolhas e riscos em gestações seguintes. A chance de placenta prévia (placenta “baixa” cobrindo o colo), placenta acreta (placenta que invade mais profundamente) e hemorragias pode aumentar com o número de cesáreas anteriores. Esses quadros são graves e, quando acontecem, exigem equipe preparada e planejamento cuidadoso.
A ruptura uterina em trabalho de parto após uma cesárea anterior é rara, mas existe. Por isso, a discussão sobre VBAC/parto vaginal após cesárea precisa ser individualizada, baseada no tipo de incisão uterina, no intervalo entre gestações, no histórico e na estrutura do local de parto. Nem toda pessoa é candidata, e nem toda equipe está preparada, mas a conversa tem de ser honesta: negar automaticamente, sem avaliar, também é uma forma de tirar autonomia.
Existe ainda a cicatriz como experiência corporal. Algumas mulheres relatam dormência, dor ao toque, sensação de “repuxar” e dificuldade de reconectar-se com o abdômen. Fisioterapia pélvica e cuidados com a cicatriz podem ajudar, e isso deveria ser parte do pós-parto, não um luxo.
Quem tem mais risco? O “depende” que precisa ser dito
Risco não é culpa, mas conhecer fatores que aumentam a chance de complicações ajuda a planejar melhor. Cesáreas repetidas, obesidade, diabetes, hipertensão, anemia, tabagismo, trabalho de parto prolongado antes da cirurgia, bolsa rota por muitas horas e hemorragia prévia são exemplos de situações que podem elevar risco de sangramento, infecção e trombose.
O ambiente também pesa. Protocolos de prevenção de infecção, disponibilidade de banco de sangue, equipe experiente e respeito às boas práticas mudam o desfecho. A mesma cirurgia, em lugares diferentes, pode ter resultados muito diferentes.
Sinais de alerta: quando buscar atendimento sem esperar
Se você teve cesárea, procure avaliação imediata se houver febre, sangramento que encharca absorvente rapidamente, dor forte que piora em vez de melhorar, secreção com mau cheiro, vermelhidão intensa ou abertura na ferida, falta de ar, dor no peito, desmaio, dor e inchaço em uma perna, confusão mental ou tristeza profunda com sensação de incapacidade de cuidar de si e do bebê.
Não é exagero “incomodar”. Puerpério não é prova de resistência, e complicação tratada cedo costuma ser mais simples de resolver.
Como reduzir riscos e proteger a sua autonomia (antes e depois)
A melhor prevenção começa antes do parto: com decisão informada e indicação bem feita. Se alguém disser que “cesárea é mais segura” ou “parto normal estraga”, você tem o direito de pedir base, números e alternativas. Pergunte qual é a indicação, o que acontece se esperar, quais são os riscos para você e para o bebê em cada caminho e se existe espaço para reavaliar. Consentimento não é assinatura em papel: é compreensão real.
No perioperatório, vale conversar sobre medidas simples que mudam o pós-operatório: controle adequado de dor (para você conseguir levantar), incentivo à deambulação precoce, orientações sobre higiene da ferida, sinais de alerta e apoio para amamentar em posições confortáveis que não pressionem a incisão.
No puerpério, priorize rede de apoio e descanso possível. Evite carregar peso, observe a ferida diariamente, hidrate-se, coma fibras para reduzir constipação e aceite ajuda para as tarefas da casa. Se você sente que a experiência foi violenta ou desrespeitosa, buscar acolhimento psicológico também é cuidado de saúde, não “drama”.
Se você quer se preparar para conversas difíceis com equipe e organizar escolhas com calma, a A Casa de Parto reúne conteúdos e materiais educativos que ajudam a transformar informação em plano prático.
A decisão sobre via de parto não precisa ser um salto no escuro: quando você entende riscos, benefícios e contexto, você não “escolhe contra” alguém — você escolhe a favor de si, com o corpo e a história que são seus.