Tem um momento no trabalho de parto em que o corpo pede: “não me deita”. Não é drama, não é fraqueza, não é falta de preparo. Para muita gente, é fisiologia pura. A dor muda de lugar, a pressão aumenta, a contração vem em ondas mais intensas e, quando você muda de posição, algo encaixa – o quadril solta, o bebê gira, a respiração encontra espaço.
Falar de posições para aliviar dor no parto é falar de autonomia em tempo real. É você e seu corpo negociando conforto, progresso e segurança, com o apoio certo ao redor. E é também um tema onde existe um “depende” importante: a melhor posição não é a mais bonita nem a mais famosa, e sim a que faz sentido para o seu momento, para o jeito que seu bebê está descendo e para o contexto de assistência (com ou sem analgesia, com monitorização, com cansaço, com necessidade de descanso).
Por que mudar de posição alivia (e ajuda) no parto
A intensidade da dor no parto não tem uma única causa. Ela pode vir da dilatação e do afinamento do colo, da pressão do bebê em estruturas do assoalho pélvico, da lombar e da pelve, do estiramento de ligamentos, da fadiga e até do medo, que aumenta tensão muscular.
Quando você muda de posição, você mexe em três chaves importantes: gravidade, alinhamento e relaxamento. Em posições verticalizadas, a gravidade pode favorecer a descida do bebê e, para muitas mulheres, isso encurta a sensação de “travar” entre contrações. Em posições assimétricas, você cria mais espaço em um lado da pelve, ajudando rotações e encaixes. E, quando você encontra uma forma de apoiar o peso do corpo com conforto, a musculatura relaxa – e relaxar, no parto, é mais do que “ficar tranquila”: é abrir caminho.
Também vale lembrar: alívio de dor não é sempre diminuir a intensidade. Às vezes é mudar o tipo de dor (de pontada para pressão), diminuir a lombalgia, ganhar fôlego e sensação de controle.
Antes de tudo: segurança e consentimento
Você tem direito de se movimentar e escolher posições, salvo situações clínicas específicas que precisam ser explicadas com clareza. Se alguém disser que “não pode levantar” ou que “tem que ficar deitada” sem justificar, vale pedir o motivo, a alternativa e por quanto tempo.
Em geral, atenção extra é necessária quando há analgesia peridural (pela perda de força e sensibilidade), pressão alta grave, sangramento importante, sinais de sofrimento fetal que exigem monitorização contínua imediata ou quando existe alguma condição que limite equilíbrio. Mesmo assim, muitas vezes dá para adaptar com apoio, barra, cama em posição elevada, bola com supervisão ou posições laterais.
Posições para aliviar dor no parto: 8 opções que funcionam na prática
A regra de ouro é simples: escolha uma posição para atravessar 2 a 3 contrações. Se não ajudar, ajuste. O parto é dinâmico, e você não precisa “aguentar firme” na mesma postura.
1) Em pé com balanço pélvico
Ficar em pé e fazer movimentos de “rebolar” ou desenhar círculos com o quadril costuma aliviar muito a dor lombar e a sensação de pressão. Você pode apoiar as mãos em uma parede, em uma bancada, no ombro de alguém ou na barra da cama.
Funciona bem no início e no meio do trabalho de parto, quando o corpo pede mobilidade. Se houver cansaço, o truque é alternar: em pé durante a contração, sentar para descansar entre uma e outra.
2) Inclinada para frente (apoio alto)
Essa é uma das posições mais subestimadas. Você inclina o tronco para frente e apoia braços e cabeça em algo alto: uma pilha de travesseiros, uma bola apoiada na cama, o encosto elevado.
Ela ajuda especialmente quando a dor “mora” nas costas, porque tira pressão direta da lombar e permite que o sacro tenha mais mobilidade. Muitas mulheres também sentem a respiração mais fácil assim, o que muda completamente a experiência da contração.
3) Quatro apoios
No quatro apoios, você fica com joelhos e mãos no chão ou na cama, com o quadril mais livre. É uma posição muito útil para dor lombar e para situações em que o bebê precisa girar.
Se punhos ou ombros cansarem, dá para adaptar apoiando antebraços em travesseiros. E você não precisa ficar “dura”: balançar o quadril para os lados ou para trás e para frente costuma trazer alívio rápido.
4) De cócoras (com suporte)
A cócoras aumenta a abertura pélvica e pode acelerar a descida do bebê, mas exige energia e, para algumas pessoas, intensifica a sensação de pressão. Por isso, ela costuma funcionar melhor com suporte: segurando em uma barra, em um lençol firme, no pescoço do acompanhante, ou com um banquinho de parto.
Use com estratégia. Se você está exausta, pode fazer cócoras só durante a contração e voltar para uma posição de descanso entre elas. Se sentir que “aperta demais”, volte para quatro apoios ou lateral.
5) Sentada na bola (ou “bola de pilates”)
Sentar na bola permite micromovimentos que aliviam dor e ajudam o bebê a encaixar. Você pode fazer círculos pélvicos, balanço para frente e para trás ou apenas respirar sentindo a bola sustentar o peso.
Para muitas mulheres, é um ótimo meio-termo: não exige a força da verticalização total, mas ainda mantém a pelve móvel. O cuidado aqui é estabilidade: pés bem apoiados, alguém por perto, e atenção se houver tontura.
6) De lado (decúbito lateral) para descansar sem “parar”
Nem todo alívio vem de ficar ativa. A posição de lado é uma aliada quando bate exaustão, quando a pressão arterial precisa ser observada, quando há analgesia ou quando você precisa dormir entre contrações.
Uma adaptação que ajuda muito é colocar um travesseiro entre as pernas, mantendo o joelho de cima bem apoiado. Em alguns momentos, a equipe pode sugerir uma variação com a perna de cima mais flexionada para abrir mais a pelve, sem perder o descanso.
7) No chuveiro (água morna nas costas ou no ventre)
A água morna não é “só relaxamento”. Ela pode diminuir tensão muscular, mudar a percepção de dor e dar uma sensação de privacidade e foco. Muitas mulheres gostam de direcionar a água para a lombar em contrações com dor nas costas, ou para o baixo ventre quando a dor é mais frontal.
Você pode ficar em pé, sentar em um banquinho firme ou ajoelhar com o tronco inclinado para frente. Se começar a ficar mole ou tonta, é sinal para sair, beber água e mudar a estratégia.
8) Lunge (avanço) e posições assimétricas
Quando o bebê está “meio tortinho” ou quando uma dor pega mais em um lado, posições assimétricas podem ser um divisor de águas. No lunge, você fica com uma perna apoiada em um degrau, banquinho ou na própria cama, com a outra no chão, e inclina o corpo para frente com apoio.
Essa postura aumenta o espaço em um lado da pelve e pode ajudar rotações. O ideal é fazer por poucas contrações e trocar o lado, observando qual traz mais conforto ou progresso.
Como escolher a melhor posição em cada fase
No início, o foco costuma ser manter o corpo solto e a mente ancorada. Verticalização leve, bola, caminhar em um ritmo confortável e inclinar para frente funcionam bem.
No trabalho de parto ativo, é comum precisar alternar intensidade com descanso. Aí entram quatro apoios, chuveiro, cócoras com suporte em momentos estratégicos e, quando o corpo pede, deitar de lado para recuperar.
Na transição e no expulsivo, algumas mulheres se sentem mais potentes em posições que permitem força e abertura, como cócoras, semi-sentada bem apoiada, quatro apoios ou lateral com ajustes. Aqui, “alívio” pode significar encontrar uma posição onde você sente que consegue fazer, e não apenas diminuir a dor.
Quando a posição não ajuda: sinais para ajustar o plano
Se a dor está muito concentrada em um ponto, se você sente “pontada” contínua entre contrações, se surge febre, sangramento forte, dor de cabeça intensa, alteração visual, falta de ar, ou se algo parece fora do padrão do seu corpo, chame a equipe imediatamente. Autonomia não é ficar sozinha com uma dúvida – é ter suporte para decidir com segurança.
E, mesmo sem sinais de alerta, pode ser apenas fadiga. Às vezes o que alivia não é uma posição nova, e sim comer algo leve (quando permitido), hidratar, esvaziar a bexiga, diminuir estímulos e voltar para uma postura de descanso.
Como “garantir” suas posições no ambiente de parto
Vale conversar ainda na gestação sobre liberdade de movimento, uso de bola, banho morno, banquinho, barra e apoio do acompanhante. Colocar isso no plano de parto ajuda porque transforma desejo em combinado. E, se você quiser aprofundar esse tipo de preparo com linguagem direta e prática, a A Casa de Parto reúne conteúdos e materiais que organizam decisões sem tirar o protagonismo do seu corpo.
No dia, peça que diminuam entradas e saídas desnecessárias, que expliquem qualquer restrição e que ofereçam alternativas. Respeito também é isso: você não precisa “merecer” um parto com liberdade de movimento.
O parto não exige que você encontre uma posição perfeita e fique nela. Ele pede presença, permissão para mudar e uma equipe que escute. Se você se autoriza a se mexer, a testar, a descansar e a retomar, você não está só buscando alívio – está ocupando o lugar que é seu: o de protagonista do próprio nascimento.