Tem um tipo de cansaço que só aparece quando o bebê nasce: aquele em que você acabou de sentar e já precisa levantar de novo. Somado a isso, o seu corpo está sangrando, a barriga ainda não “voltou”, o peito parece ter vida própria e todo mundo tem opinião. Os primeiros 40 dias do puerpério não são um detalhe depois do parto – são um período intenso de recuperação física, reorganização emocional e construção de vínculo, que merece cuidado, proteção e informação baseada em evidências.
O que são os primeiros 40 dias do puerpério
O puerpério é a fase após o parto em que o corpo retorna, aos poucos, ao estado não gestacional. Na prática, isso envolve contração do útero, eliminação de sangramentos (lóquios), ajustes hormonais, cicatrização (seja de lacerações, episiotomia ou cirurgia), adaptação da amamentação e uma revolução na rotina.
A ideia popular de “resguardo de 40 dias” mistura cultura, espiritualidade e um recado que faz sentido: você precisa de tempo e rede para se recuperar. Só que não existe um botão que vira no dia 40. Para algumas mulheres, muita coisa melhora antes; para outras, algumas dores e oscilações continuam por mais tempo. O ponto central é entender o que costuma ser esperado e quando é hora de buscar ajuda.
O corpo no puerpério: o que costuma acontecer
Sangramento e cólicas: seu útero trabalhando
É comum ter sangramento vaginal nas primeiras semanas. Ele costuma começar mais intenso, com aspecto de menstruação, e vai clareando e diminuindo. Também são comuns cólicas, especialmente ao amamentar, porque a ocitocina ajuda o útero a contrair. Isso pode assustar, mas geralmente é um sinal de involução uterina.
O que merece atenção é sangramento que encharca absorvente rapidamente, coágulos grandes repetidos, cheiro muito forte, febre ou piora súbita depois de já estar melhorando. Nesses casos, procure avaliação.
Períneo, vagina e cicatrização: nem toda dor é “normal”
Se houve laceração, pontos ou episiotomia, é esperado sentir incômodo ao sentar, ardor ao urinar e sensibilidade local nos primeiros dias. Compressas frias podem ajudar nas primeiras 24 a 48 horas, e higiene com água corrente costuma ser mais confortável do que “esfregar” com papel.
Mas dor intensa que impede você de andar, inchaço importante, secreção com odor, abertura de pontos ou sensação de “pressão” que piora ao ficar em pé merece avaliação. Você não tem de aguentar calada nem aceitar que “mãe sofre mesmo”.
Cesárea: cuidado com a ferida e com o excesso de exigência
Após cesárea, além da recuperação uterina, existe uma cirurgia abdominal para cicatrizar. Dor ao se mover e dificuldade para levantar da cama são comuns no início. O alerta é para febre, vermelhidão que se expande, secreção na ferida, dor que piora ao longo dos dias, falta de ar ou dor na perna com inchaço (sinais que exigem avaliação imediata).
E um lembrete importante: a romantização do “já voltei a fazer tudo” pode empurrar você para esforço precoce. Recuperação não é fraqueza; é estratégia.
As mamas e a descida do leite: conforto é um direito
Por volta do segundo ao quinto dia, é comum a apojadura (a “descida do leite”). As mamas podem ficar quentes, cheias, doloridas. A base para atravessar essa fase é manejo: pega e posicionamento adequados, mamadas frequentes e esvaziamento eficaz.
Se o peito empedra, pode ajudar colocar compressa morna antes da mamada para facilitar a saída e compressa fria depois para aliviar edema. Ordenhar um pouco antes de colocar o bebê no peito também pode amolecer a aréola e melhorar a pega.
Fique atenta a sinais de mastite: área vermelha dolorida, febre, mal-estar. Mastite tem tratamento e não deveria ser normalizada.
Emoções nos primeiros 40 dias: você não “virou outra pessoa”, você está se reorganizando
Logo após o parto, a queda hormonal é grande. Some isso a noites fragmentadas, dor, preocupação com o bebê e mudanças na identidade – o resultado é que muitas mulheres oscilam entre choro fácil, irritação e sensação de vulnerabilidade. O baby blues é comum nos primeiros dias e costuma melhorar em até duas semanas.
Quando passa desse período, ou quando vem com desesperança, culpa intensa, falta de prazer, pensamentos intrusivos assustadores, apatia, vontade de sumir, ou medo de ficar sozinha com o bebê, é hora de procurar ajuda profissional. Depressão e ansiedade pós-parto não são falta de gratidão. São condições de saúde – e têm tratamento.
Também vale nomear uma realidade: a forma como você foi tratada no parto pesa no puerpério. Quem viveu desrespeito, pressão, frases humilhantes ou procedimentos sem consentimento pode apresentar sintomas de trauma. Você tem direito a cuidado pós-parto que acolha também a sua experiência, não só a do bebê.
Rede de apoio na vida real: o que ajuda de verdade
Muita gente oferece “ajuda” que vira visita longa e foto no colo do bebê. Rede de apoio boa reduz carga mental e protege o seu descanso. O que costuma funcionar melhor é combinar tarefas concretas: comida pronta, louça, roupa, mercado, levar alguém ao pediatra, segurar o bebê por 30 minutos para você tomar banho e comer com as duas mãos.
Se você está sem rede, ainda assim dá para criar algum suporte: revezar turnos com o outro cuidador quando possível, pedir ajuda pontual para uma pessoa de confiança, e considerar apoio profissional (como consultoria de amamentação ou doula pós-parto) se estiver ao seu alcance.
Amamentação nos primeiros 40 dias: ajuste fino, não prova de resistência
A amamentação costuma se estabelecer com tentativa, erro e correções – e isso não tem nada a ver com “ser forte”. Dor no mamilo não é um requisito do processo. Na maioria das vezes, dor persistente aponta para pega ruim, posição que não está confortável, restrição de mobilidade oral, uso de bicos intermediários sem orientação, ou um início com muitas fissuras.
Nos primeiros dias, o bebê pode mamar com muita frequência, inclusive em “cluster” (várias mamadas seguidas). Isso pode ser normal, mas é exaustivo. A diferença entre normal e preocupante costuma estar em sinais do bebê: se ele está alerta em momentos do dia, faz xixi e cocô com frequência esperada e ganha peso, a tendência é ser um período de adaptação. Se há sonolência excessiva, baixa diurese, perda de peso importante ou dor materna que impede as mamadas, procure avaliação o quanto antes.
A sua autonomia entra aqui: você tem o direito de receber orientação baseada em evidências, sem culpa, e de decidir o que faz sentido para a sua família.
Sexo, corpo e “voltar ao normal”: cada mulher tem um relógio
Desejo sexual pode cair muito no puerpério, especialmente com amamentação e privação de sono. Secura vaginal é comum por causa dos hormônios. O “liberada em 40 dias” não significa “pronta”. Significa que, muitas vezes, existe uma janela para avaliar cicatrização e conversar sobre anticoncepção.
Se houver dor na relação, medo, ou sensação de que algo “não está no lugar”, isso merece cuidado, não insistência. Em muitos casos, fisioterapia pélvica ajuda bastante, assim como lubrificante e retomada gradual quando você estiver confortável.
Quando procurar ajuda sem esperar
Você não precisa “pagar para ver” se algo piorar. Procure serviço de saúde com urgência se tiver febre, sangramento muito intenso, dor forte no peito ou falta de ar, dor de cabeça com alteração visual, desmaio, tristeza profunda com pensamentos de autoagressão, ou sinais de infecção em feridas.
E procure ajuda em tempo oportuno (sem urgência, mas sem adiar por semanas) se houver dor ao amamentar que não melhora, fissuras que reabrem, sensação de bexiga “caindo”, escapes de urina importantes, dor pélvica persistente, ou sofrimento emocional que atrapalha sua rotina.
Um jeito mais respeitoso de atravessar o puerpério
Os primeiros 40 dias do puerpério ficam mais leves quando você se permite fazer menos e pedir mais. Isso não é luxo; é prevenção. Se alguém questionar seu descanso, lembre-se: recuperação pós-parto é cuidado de saúde.
Uma prática simples é anotar, no celular, três coisas: sinais de alerta que você quer lembrar, contatos que podem ajudar (alguém para comida, alguém para escuta, alguém para levar a um atendimento) e uma frase âncora para os dias difíceis, algo como “eu não preciso dar conta sozinha”. Se você gosta de conteúdos estruturados e baseados em evidências, a A Casa de Parto reúne materiais de gestação e pós-parto para apoiar decisões com autonomia.
O puerpério não pede perfeição. Ele pede presença possível, informação boa e uma rede que trate você como alguém que também nasceu junto com o bebê – e que merece ser cuidada.