Você chega perto do fim da gestação, começa a montar o plano de parto e, de repente, um medo comum aparece: “vão me cortar?”. No Brasil, muita gente ainda escuta que a episiotomia é “para ajudar”, “para não rasgar” ou “para o bebê nascer mais rápido”. Só que, quando a conversa é baseada em evidências e respeito, a pergunta muda de tom: parto sem episiotomia é possível? Sim. E, mais do que possível, é frequentemente o caminho mais seguro quando não existe uma indicação real.
Episiotomia é um corte feito no períneo (a região entre a vagina e o ânus) no momento do expulsivo. Ela pode ser mediolateral (mais para o lado) ou mediana (em direção ao ânus). A ideia histórica era “controlar” a saída do bebê e evitar lacerações. O problema é que a ciência, há décadas, mostra que usar episiotomia de rotina não traz os benefícios prometidos e pode aumentar danos, dor e tempo de recuperação.
Parto sem episiotomia é possível – e por que isso importa
Quando a episiotomia vira rotina, ela deixa de ser uma intervenção pontual para virar um padrão imposto. Isso afeta diretamente autonomia, conforto, sexualidade no pós-parto e até o vínculo com a experiência do nascimento. Não é exagero: um corte sem necessidade pode ser vivido como violência, especialmente quando é feito sem consentimento claro ou sem explicação.
Do ponto de vista físico, episiotomia pode aumentar risco de laceração mais grave (principalmente se o corte “propaga”), causar dor persistente, dificultar sentar e cuidar do bebê, impactar a amamentação por limitar posições e aumentar risco de infecção. E existe um ponto que merece ser dito com firmeza: “não rasgar” não é garantia de episiotomia, e “rasgar” não é automaticamente pior do que cortar. Lacerações espontâneas costumam ser menores e cicatrizam melhor do que um corte amplo feito preventivamente.
Quando a episiotomia pode ser indicada (de verdade)
Defender parto sem episiotomia não é negar que existam situações específicas em que ela pode ser considerada. A diferença está na palavra “indicada”, e não “automática”. Em geral, a episiotomia pode entrar como opção quando há necessidade de acelerar o nascimento por sinais de sofrimento fetal no expulsivo e outras manobras não resolveram, ou em alguns partos instrumentais (fórceps ou vácuo-extrator), dependendo do caso e da avaliação do períneo.
Ainda assim, mesmo nesses cenários, o raciocínio precisa ser individualizado: qual é a urgência real, quais alternativas existem, qual é o risco de uma laceração grave sem o corte, e qual é o impacto do corte naquele corpo. A decisão deve ser informada e consentida. Se alguém fala em “fazer porque é melhor” sem explicar o porquê, isso é um alerta.
O que reduz a chance de episiotomia na prática
Aqui entra a parte que devolve controle: existem estratégias que, somadas, diminuem a probabilidade de episiotomia e de lacerações graves. Não é promessa de “períneo perfeito”, porque parto é vivo, imprevisível e depende também do bebê, do ritmo do expulsivo e das condições do momento. Mas é um caminho consistente.
Escolha de equipe e local: o que muda o jogo
O fator mais determinante costuma ser o modelo de assistência. Equipes alinhadas com parto humanizado e com uso restrito de episiotomia tendem a respeitar mais o tempo do expulsivo, evitar comandos agressivos de puxo e favorecer posições que protegem o períneo.
Vale perguntar diretamente, ainda no pré-natal: “Qual é a sua taxa de episiotomia?” e “Em quais situações você indica?”. Respostas vagas, defensivas ou do tipo “eu faço quando precisa, e quase sempre precisa” mostram que você talvez esteja em um serviço onde o corte é normalizado.
Posições e liberdade de movimento
Parir deitada, com pernas presas e puxo dirigido, aumenta pressão no períneo. Já posições verticalizadas (de cócoras, em pé, ajoelhada, quatro apoios, na banqueta) podem favorecer a descida do bebê e permitir que o períneo estique de forma mais gradual.
O ponto central é ter liberdade para mudar de posição e seguir o corpo. O corpo dá sinais: um quadril que quer girar, uma necessidade de apoiar em uma cadeira, vontade de ir para o banho. Isso não é “frescura”, é fisiologia ajudando o bebê a nascer com menos força contra o períneo.
Tempo do expulsivo e “mão leve”
A pressa é inimiga do períneo. Um expulsivo respeitado inclui pausas, respirações, momentos em que o bebê avança milímetro a milímetro. A equipe pode apoiar com técnicas de proteção perineal e, principalmente, evitar manobras agressivas.
Aqui cabe um pedido objetivo no plano de parto: evitar puxo dirigido prolongado, evitar pressão no fundo do útero (manobra de Kristeller) e priorizar condução fisiológica. Quando o bebê coroa, “segurar o tempo” e permitir que a cabeça nasça devagar costuma ser uma das maiores proteções contra cortes e lacerações extensas.
Analgesia, exaustão e o “depende” honesto
Analgesia peridural pode ser uma ótima escolha para algumas pessoas, e não deve ser demonizada. Mas é verdade que, em alguns cenários, ela reduz mobilidade e aumenta chance de intervenções em cascata, o que pode influenciar o risco de episiotomia. Não é regra. Há partos com analgesia e sem episiotomia, especialmente quando a equipe favorece mudanças de posição na cama, espera ativa e bom manejo do expulsivo.
Da mesma forma, exaustão materna e um bebê em posição desfavorável podem levar a decisões para abreviar o final do parto. Por isso, preparação e suporte (doula, acompanhante bem orientado, ambiente seguro) fazem diferença: menos medo, menos tensão, melhor coordenação do expulsivo.
Preparação do períneo: o que ajuda e o que é mito
Existem abordagens que podem contribuir, mas nenhuma substitui um cuidado respeitoso na hora do nascimento.
Massagem perineal a partir de 34-36 semanas pode ajudar algumas mulheres, especialmente primíparas, a se familiarizar com a sensação de alongamento e a aumentar elasticidade. Não precisa ser dolorida, e não deve ser feita se houver desconforto importante, infecção ativa ou orientação contrária do pré-natal.
Compressas mornas no períneo durante o expulsivo, quando disponíveis e aceitas, têm evidência de reduzir lacerações graves. Banho morno e água quente também ajudam relaxamento.
O que costuma ser mito ou excesso de promessa: “óleo X evita laceração”, “chá Y fortalece o períneo”, “se fizer exercício tal não vai rasgar”. Movimento e força pélvica importam, sim, mas não como garantia. Um bom preparo inclui consciência corporal, respiração, alongamento, e, quando possível, fisioterapia pélvica para avaliar tônus (porque períneo muito tenso também pode dificultar o estiramento).
Conversas que você precisa ter antes do trabalho de parto
Se você quer reduzir ao máximo a chance de episiotomia, a conversa precisa acontecer no pré-natal, com calma. Na hora, com contrações, cansaço e emoções altas, negociar do zero é bem mais difícil.
Pergunte como a equipe lida com o expulsivo: se respeita puxos espontâneos, se incentiva posições livres, se usa proteção perineal, se tem protocolo de compressa morna. Pergunte também sobre consentimento: “Se você achar que episiotomia é necessária, como você vai me explicar e pedir autorização?”. A resposta ideal inclui transparência e tempo para consentir, mesmo em urgência.
E registre no plano de parto uma frase simples e poderosa: “Episiotomia apenas com indicação clínica clara, explicação e consentimento”. Isso não é “bater de frente” com ninguém. É colocar, por escrito, o seu padrão de cuidado esperado.
Se você quer um apoio mais estruturado para essas conversas e para montar um plano de parto coerente com as suas prioridades, a A Casa de Parto reúne materiais educativos que ajudam a transformar informação em decisão prática.
E se eu laceração acontecer?
Aqui mora um alívio necessário: laceração não é sinônimo de desastre. A maioria é de primeiro ou segundo grau e cicatriza bem com manejo adequado. O cuidado inclui avaliação cuidadosa, sutura quando indicada (e com anestesia), orientação de higiene e analgesia, e acompanhamento no pós-parto.
O que você não precisa aceitar é “costura a mais para ficar apertado” (o chamado “ponto do marido”), comentários sobre estética, ou sutura sem anestesia adequada. Isso fere direitos, causa dor e pode gerar dispareunia (dor na relação) por meses. Períneo é saúde, não é enfeite.
Sinais de alerta de que o corte pode estar sendo normalizado
Existe um jeito de perceber, ainda no pré-natal, se a episiotomia é vista como rotina. Frases como “aqui a gente faz para não rasgar”, “é um cortezinho”, “nem sente”, “depois eu costuro e fica melhor do que antes” ou “todo primeiro parto precisa” são sinais claros de desatualização e de risco de desrespeito.
Você tem o direito de trocar de profissional, pedir segunda opinião e escolher um ambiente onde seu corpo não seja tratado como um problema a ser corrigido. Autonomia não é teimosia. É segurança.
Fechar a porta para a episiotomia de rotina não significa controlar tudo, e sim recusar o que é desnecessário. Seu parto pode ser intenso, imprevisível e, ainda assim, profundamente respeitoso. Quando você entende as indicações reais, prepara o corpo e escolhe uma equipe alinhada, você não está “fazendo exigência” – você está exercendo um direito básico: ser cuidada com evidência, consentimento e dignidade.